Mas não são livros.

Nas últimas semanas, o mundo se dividiu em três facções: quem AMA os livros de colorir para adultos, quem os acha uma babaquice e quem chora porque o best seller atual é um livro que não traz nada de texto (“onde viemos parar, é o fim da literatura…”).

Não tenho nenhum conselho para os dois primeiros grupos (o primeiro, aliás, não precisa de conselho porque está bem calminho e sem estresse). Mas, para os sofredores do terceiro: calma, não é um livro.

Os números estão mentindo. Os livros de colorir para adultos não deveriam estar na lista de best-sellers. Têm páginas. Têm capa. Fomos publicados por editoras. Mas não são livros.

Lembram-se daqueles almanaques da Turma da Mônica que a gente levava para a praia nas férias? Tinham atividades de colorir, de ligar pontos, de etc., etc. Então, é isso. Só que com um papel de melhor qualidade.

Ceci n'est pas un livre
Ceci n’est pas un livre

Não estou dizendo que são bons ou ruins. Eu, particularmente, vi meu nível de estresse… subir com um livro de pintar mandalas. É tanto detalhezinho, tanta coisinha para pintar, são tantas horas para ver só metade do trabalho pronto que eu comecei a ficar ansiosa para ver minha mandala pronta logo. Fail total.

Mas eles funcionam para algumas e pessoas, então, ótimo! Mas não são livros. E isso não significa que não são bons. Eles são bons (ou ruins) dentro do seu nicho, de caderno de atividades, mas não são livros.

Calma, quem comprou um desses não deixou de comprar o último vencedor do Pulitzer. Não trocou um clássico russo pelo livro de pintar. São públicos diferentes. Ou até é o mesmo público, mas em momentos diferentes. É como um vendedor de roupas ficar triste porque, na última semana, quem ganhou mais dinheiro foi um vendedor de legumes.

Como disse Zoara Failla, gerente executiva de projetos do Instituto Pró-Livro e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil em entrevista para o Tab:

Esses livros de ilustrar servem como entretenimento, mas o fato de ele estar montado como um livro não o torna um livro no sentido que entendemos o livro como algo que traz ideias, pensamentos, constrói histórias, que desperta emoções por acessar novos conhecimentos ou por entrar em uma história.

Não tema, pessoal! Esses não são concorrentes para nos preocuparmos!

Recado difícil

Moça… eu sou o Quinzinho, filho do Joaquim da loja de ferramentas… Eu estudo na mesma escola do seu filho… Assim, não na mesma sala porque ele é mais grande que eu, mas eu sei quem ele é porque, uma vez, ele me emprestou uma moeda pra comprar o doce de maçã que o seo Toninho vende na porta da escola, então eu sei quem ele, mas eu acho que ele não lembra de mim… E eu tava indo para a casa da minha tia buscar uma panela que a minha mãe quer fazer feijão pra gente hoje, mas a panela que ela tinha já tá ruim pra burro e aí, a minha tia mora do lado da lagoa, eu tenho que passar pela estrada pra chegar lá e a estrada é perigosa, a gente tem que atravessar com cuidado, mas às vezes vem tanto carro que a gente demora bastante para conseguir passar, mas eu passei sem problema e voltei sem problema porque eu aprendi a atravessar quando ainda era bem pequeno co meu pai… A minha tia não tava, então eu pensei que podia esperar ela, mas estava com cara que ia chover… E eu fui voltar, porque eu gosto de chuva, mas, se eu chegar molhado em casa, a minha mãe me proíbe de nadar na lagoa por um mês até ter certeza de que eu não fiquei doente… Ela diz que a doença é esperta e, às vezes espera para atacar, só pra pegar a gente de surpresa… E aí eu fui voltar e atravessei a estrada e voltei e tinha uma gente junta lá perto do mercado do português e eu fui olhar e eu não gosto de olhar porque não sou curioso, mas eu fui olhar e aí… Eles mandaram eu vir falar coa senhora porque… Moça, seu filho… Eu sei que é seu filho porque ele estuda na minha escola, mas ele é mais grande que eu, mas ele me emprestou dinheiro uma vez… seu filho, moça, uma carroça passou em cima dele.

(Imagem: Recado difícil – Almeida Júnior)